

Imagens: Kithi
ENTRE RIOS E ENCANTARIAS: UM PERCURSO POR SANTARÉM E SEUS TERRITÓRIOS DE SABER
No coração do Pará, a margem da água azul-esverdeada do Rio Tapajós e da água barrenta do Rio Amazonas, visivelmente separadas, está Santarém. Um lugar onde a beleza se encontra no mistério da natureza e na sabedoria de um povo que tece, diariamente, com determinação e coragem, a cultura raiz que resiste e existe. Santarém é reza que corre pelos igarapés, é canto que nasce do som do curimbó. É boto que se veste de gente para encantar a tradição. É o Çairé que mistura celebração, encantaria e oração. É a Festa de São Miguel que canta a fartura com os neguinhos. É a beleza do artesanato de palharia que faz prosperar a gente de Urucureá, uma povo ribeirinho.
Nas panelas, o tucupi borbulha histórias. Na cerâmica, mãos moldam memórias. Cada cesta é um mapa da palmeira colhida na lua certa, da história passada de avó para neta, do cuidado que se aprende com a floresta. Nos rios os barcos deslizam com paciência de quem sabe que o destino é mais do que a chegada. É vento. É caminho. É conversa com as águas.
O povo de Santarém tem a firmeza das raízes, o tempo das águas e a leveza do vento que sopra das praias invisíveis, que só quem é do lugar sabe nomear. Ali, onde a floresta respira no meio da cidade, onde cada canto é resistência, onde cada gesto é herança, onde cada festa é rito é que cheguei da Bahia para contar esta história. Uma história vivida, sentida e querida de um Brasil que pulsa cultura e tradição.
Santarém é pé descalço dançando curimbó e carimbó na poeira fina dos quintais. Santarém é Borari, Tapajó, Tupaiú, Arapiuns... Território de encantamento e patrimônio vivo da Amazônia.
Nota de Autoria
Esta é uma reportagem multimídia, mas também um relato de travessia.
Durante 15 dias estive em Santarém navegando entre rios e histórias, ouvindo moradores, acompanhando festas tradicionais, brincando nos igarapés como criança e vendo de perto o que tantas vezes se conta de longe.
As imagens que você verá aqui são autorais. São feitas com o cuidado de quem observa com a espiritualidade que tudo sente. Por isto, esta matéria será escrita as vezes em terceira pessoa, as vezes em primeira pessoa, as vezes poeticamente... Um formato misturado como a própria gente brasileira. Um formato livre como o pássaro, símbolo e nome desta revista que tem a alma de um povo inteiro.



Da divulgação do Instagram para o 2 Encontro Internacional de Ceramistas Indígenas nasceu a vontade de ir para Alter do Chão, ver e aprender a moldar o barro com os povos originários da América do Sul. O lugar, Alter do Chão, e a data, setembro, escolhidos para a realização do encontro, era também a data do Çairé. Um evento anual, feito pelo povo, que reúne rituais católicos, danças indígenas, simbologias próprias, música popular e uma forte presença do imaginário ribeirinho, traduzido no duelo entre os botos tucuxi e rosa. Um lugar de beleza natural sem igual, de praias que nascem com a seca dos rios e desaparecem com as chuvas que transbordam.
De Alter do Chão segui para conhecer o Contra Mestre Pinóquio do Grupo de Capoeira Angola Maré de Março de Santarém e embarcar em uma viagem de barco, de forma tradicional, para Urucureá junto com Ana Carolina, que me levava para conhecer o Projeto Tucumarte e a Festa de São Miguel Arcanjo.
Foram 15 dias de imersão nos movimentos de resistência do povo santareno. Uma experiência de um Brasil que corre nas minhas veias, apesar da distância geográfica.

O caminho
A decisão de ir para Santarém veio rodeada de incertezas. Um lugar desconhecido, no meio da floresta, sem referências de pessoas próximas e muito distante de casa. Mas o coração queria ir. Era algo insuportavelmente forte para fingir não ver. Conversei com a Débora, produtora do encontro e ceramista, falei das minhas incertezas e ela me passou uma confiança de imediato, porém ela também não conhecia Santarém. Foi então que fui lá no grupo de capoeira de Mestre Gaxinin do Mar e perguntei: "gente, vocês conhecem alguém de Santarém?" Capoeira é família, né? Se um Mestre te indica, tá indicado e ponto. E a turma respondeu: "tem Pinóquio, contramestre de capoeira que é de lá. Telefonei e recebi o acolhimento de quem conhece a terra. E Pinóquio foi meu esteio e a minha certeza de que não estaria só nessa jornada. Viajei sossegada e ganhei um guia que me apresentou, como um bom capoeirista, as encruzilhadas do local. Um encontro da espiritualidade.
De Salvador para Alter do Chão, distrito de Santarém, foram quase 24 horas de viagem, três escalas e três mudanças de avião e mais 37Km de ônibus que a produção do evento de cerâmica contratou para fazer nosso translado. Com pensamentos soltos e um coração apertado de expectativa estava eu.
Cheguei em Alter do chão com o corpo cansado, mas com a alma aberta. E ali, entre o azul do céu e as águas do rio reinava um sol fervente de um lugar úmido que deixava meu corpo enxarcado como se tivesse acabado de sair do banho. Mas era uma sensação tão próxima do meu ser que senti que algo me esperava. Era o compasso do tempo que parecia estar na antiga Salvador quando o povo podia andar nas ruas tranquilamente ao som das músicas e o brilho do mar. Pisei com respeito. Como quem entra num território sagrado. E foi então que vi as fitas, os mastros, os tambores. O som do carimbó marcando o chão de uma forma tão forte e tão ancestral como o samba do Recôncavo baiano. Tudo era tão meu... Os jovens dançando com os mais velhos, as crianças carregando o futuro nos olhos. Um encontro com a memória viva do povo Borari. Ali, ao vivenciar o Sairé, entendi que a força que me movia para o desconhecido era um chamado profundo do Divino Espírito Santo, da floresta, do rio, dos encantados para conhecer o rito que mistura fé e ancestralidade, brincadeira e devoção, encantamento e resistência. Um sopro de um mundo encantado e próspero sustentado por um povo que canta, dança e cuida. Depois de 24 horas, eu cheguei cansada, mas o Çairé me recebeu inteira. E o que recebi,
não cabe em mala, não cabe aqui e nem se perdeu na volta. Ficou. Ficou em mim como reza, como igarapé, como raiz que fortalece a folhagem que brota renovada e banhada pelas águas do Tapajós.
Santarém
A história oficial tem a data de 22 de junho de 1661 como o dia da fundação da cidade de Santarém. Dia em que a missão dos jesuítas se instalou nas terras do povo Tapajó; e a data de 1758 como o dia que foi batizada com o mesmo nome de uma cidade de Portugal.
Porém, as pesquisas recentes mostram outra verdade sobre a história da terceira maior cidade do Pará, conforme dados do IBGE do senso de 2022. Morando ali, entre os séculos de 1200 e 1600, ocupando continuamente o território, estava uma das maiores sociedades amazônicas. As escavações em dois sítios arqueológicos indicam que o padrão de ocupação apontam para assentamentos densos, com bairros definidos e grandes áreas cerimoniais ao longo das margens do Rio Tapajós. Um povo organizado com espaços sagrados e locais de festas e cerimônias. Foram encontrados: peças de cerâmica tapajônica com decorações elaboradas, além de indícios que sugerem a prática de comercialização de excedentes; espessas camadas de solo negro enriquecido, sinal de longas ocupações e manejo agrícola intencional; amplas aldeias com praça; e cemitérios com urnas contendo restos humanos indicando práticas funerárias elaboradas, levando a arqueóloga Denise Gomes propor a hipótese da aldeia ter sido um verdadeiro centro cerimonial indígena liderado por poderosos xamãs (lideres espirituais), como se fosse uma cidade sagrada da Amazônia. Os materiais recuperados confirmam o alto grau de sofisticação cultural presente nessa sociedade.
Essa história nos lembra de algo essencial: no Brasil existia povos com saberes elaborados antes da invasão dos Portugueses. Ancestrais da sabedoria que se faz presente no povo de agora, que resiste fortemente ressignificando a tradição sem jamais perder a essência. Santarém é hoje um polo regional do Oeste do Pará onde concentra serviços, comércio e produção agrícola, mas também é um centro cultural e simbólico de grande relevância e um lugar turístico de rara beleza. Uma cidade construída sobre outra cidade: indígena, ancestral, invisível aos olhos, mas viva na memória da terra.
O povo Tapajó formaram uma das civilizações pré-coloniais mais importantes da Amazônia, reconhecida por seu grau de organização social, agricultura desenvolvida, cerâmica refinada e sistemas de assentamento ao longo dos rios. Eram mestres do manejo florestal e da navegação, e deixaram vestígios que hoje estão sob estudo de arqueólogos e pesquisadores que desconstroem a antiga ideia de uma Amazônia sem história.
Com a colonização portuguesa, Santarém passou a ser ponto estratégico para o avanço das missões religiosas e do domínio da Coroa sobre os territórios amazônicos. Os jesuítas fundaram aldeamentos, introduziram o catolicismo e, em muitos casos, tentaram apagar a cultura indígena. A cidade cresceu entre tensões e trocas, moldando-se como um mosaico cultural que une as tradições indígenas com traços europeus e, posteriormente, com a presença marcante da população negra trazida pela escravidão.
é muito mais antiga.
Os mapas publicados contribuem para a narrativa de uma verdadeira história desta cidade, alicerçados também de forma significativa, pelos artefatos dos Sítios Arqueológicos de Taperinha e da Caverna da Pedra Pintada, dentre esses as cerâmicas mais antigas já identificadas no continente americano, com datas que podem chegar a 6.000 anos a.C., evidenciando, com isso, a ocupação deste território por populações nativas há muito tempo
A área do munícipio se estendeu quando foi elevada a categoria de vila, em 1758, pelo governador da Província Grão Pará, Capitão Geral Francisco Xavier de Mendonça Furtado que instalou as vilas de Alter do Chão, local do povo Borari; Boim, terra do povo Tupinambá; Vila Franca, local do povo Arapiuns e Cumarús; e Pinhel, onde era terra do povo Matapuz.
O povo Tapajó formaram uma das civilizações pré-coloniais mais importantes da Amazônia, reconhecida por seu grau de organização social, agricultura desenvolvida, cerâmica refinada e sistemas de assentamento ao longo dos rios. Eram mestres do manejo florestal e da navegação, e deixaram vestígios que hoje estão sob estudo de arqueólogos e pesquisadores que desconstroem a antiga ideia de uma Amazônia sem história.
Com a colonização portuguesa, Santarém passou a ser ponto estratégico para o avanço das missões religiosas e do domínio da Coroa sobre os territórios amazônicos. Os jesuítas fundaram aldeamentos, introduziram o catolicismo e, em muitos casos, tentaram apagar a cultura indígena. A cidade cresceu entre tensões e trocas, moldando-se como um mosaico cultural que une as tradições indígenas com traços europeus e, posteriormente, com a presença marcante da população negra trazida pela escravidão.



